Paulinho ganha papel tático como solução diferente para um problema já conhecido no Palmeiras
- 21/09/2026
O Palmeiras chega à Data Fifa com uma contradição que ajuda a explicar por que Paulinho pode ganhar importância na reta final. O time produz, controla partidas e consegue empurrar adversários para trás, mas ainda encontra dificuldade para transformar superioridade em gols. Contra o Grêmio, foram impressionantes 31 finalizações, 72% de posse e 2,49 de xG (expectativa de gols), mas o placar terminou 0 a 0. O próprio auxiliar João Martins resumiu o problema como falta de eficácia, enquanto Gustavo Gómez também apontou a necessidade de melhorar a conclusão das jogadas.
Exatamente nesse ponto que o retorno de Paulinho pode alterar a estrutura tática palestrina. O atacante já declarou que se sente mais confortável atuando por dentro, como segundo atacante ou falso nove, e explicou que suas principais características aparecem quando pode atacar o último terço com liberdade. Essa característica conversa diretamente com uma questão que o Verdão apresentou em diferentes momentos da temporada.
Há volume pelos lados, mas nem sempre existe uma segunda ameaça atacando o espaço central na mesma velocidade. O dado individual de 2026 precisa, porém, ser tratado com cuidado. Paulinho participou de seis partidas do Brasileirão, somando 148 minutos e dois gols, segundo o FBref; no recorte oficial da SEP, são nove jogos na temporada e dois gols. Isso significa que sua produção por minuto chama atenção, mas a amostra ainda é pequena demais para transformar esses números em uma garantia de rendimento.
O que existe, por enquanto, é uma indicação objetiva de que ele conseguiu ser decisivo mesmo tendo atuado quase sempre como alternativa de segundo tempo. O contraste aparece quando olhamos para o Palestra sem Paulinho desde sua última partida, em 26 de julho. A partir dali, o time disputou oito jogos de Brasileirão sem contar com o atacante e marcou 13 gols, mas acumulou três empates e uma derrota nesse intervalo.
As mudanças que a entrada de Paulinho pode engatilhar
O cenário fica ainda mais interessante depois da retomada do campeonato: nas cinco partidas contra Vitória, Internacional, Fluminense, Vasco, Mirassol e, no recorte posterior, Botafogo, São Paulo e Grêmio, o Alviverde alternou momentos de grande produção com dificuldades para converter domínio em resultado. Desde a volta da Copa, foram três empates contra equipes da parte de baixo da tabela.
O impacto de Paulinho pode estar menos relacionado à quantidade bruta de finalizações e mais à qualidade das situações criadas. O Palmeiras já mostrou que consegue chegar muitas vezes ao ataque. A questão passa a ser quem consegue transformar esse domínio territorial em movimentos que desorganizem a última linha. Paulinho tem características para atacar justamente esse espaço: aceleração, condução, movimentação por dentro e capacidade de aparecer próximo da área.

Há ainda uma consequência tática importante para Abel Ferreira. Paulinho pode permitir que se mantenha um ponta ou ala dando amplitude enquanto ele ocupa o corredor interno, formando uma espécie de segunda linha de ataque ao lado do centroavante. Em vez de depender exclusivamente de cruzamentos, passes laterais ou infiltrações dos meias, o time passa a ter outra peça capaz de receber entre linhas, carregar a bola e atacar a área. O próprio jogador explicou que, quando atua mais próximo do gol, consegue explorar melhor potência e velocidade.
Essa característica também pode potencializar jogadores que já fazem parte da estrutura. Vitor Roque poderia encontrar mais espaço para atacar a última linha se Paulinho recuar ou conduzir por dentro, enquanto Flaco López pode se beneficiar de uma segunda movimentação próxima à área. Da mesma maneira, jogadores como Arias e Mauricio poderiam receber mais liberdade para atacar os lados sem que o sistema fique dependente de todos os jogadores chegando simultaneamente ao ataque.
Com o camisa 10 aumentam as possibilidades táticas
Existe ainda uma dimensão de transição. O Palmeiras tem utilizado diferentes estruturas, inclusive sistemas com três zagueiros, e isso pode gerar uma situação interessante para Paulinho. Ele não precisa necessariamente começar aberto para participar da construção ofensiva. Pode partir de uma zona lateral e rapidamente migrar para dentro, recebendo a bola em movimento e acelerando a transição. É uma característica especialmente útil em partidas nas quais o adversário mantém muitos jogadores atrás da linha da bola e o Verdão precisa de alguém capaz de romper a primeira barreira individualmente.
O retorno, entretanto, precisa ser administrado. Paulinho sofreu uma nova lesão no tendão do adutor longo da perna direita em agosto, depois de ter voltado a atuar em 2026 após um longo período de recuperação. A previsão atual é de retorno após a Data Fifa. Portanto, imaginar Paulinho imediatamente como titular absoluto seria ignorar justamente a variável física que condicionou sua temporada.
A peça que está faltando?
É aí que a reta final pode oferecer ao Palmeiras uma possibilidade diferente: Paulinho não precisa resolver sozinho o problema da eficácia, mas pode acrescentar uma ferramenta que hoje faz falta à estrutura. O time já produz volume, tem jogadores capazes de controlar o jogo e apresenta uma defesa consistente. O próximo passo é aumentar a variedade das ameaças perto da área. Se conseguir recuperar Paulinho progressivamente, Abel poderá ganhar um atacante que joga por dentro e aproxima diferentes peças do gol. Depois de uma partida de 31 finalizações terminar sem gol, talvez o debate não seja mais sobre criar mais e sim sobre criar de maneiras diferentes.







